Dois anos de Parmigiani Fleurier no Brasil: entrevista com o CEO da companhia, Jean-Marc Jacot

ParmigianiA relojoaria suíça Parmigiani Fleurier completa dois anos de sua chegada ao Brasil nos próximos meses. Discreto, seu desembarque ocorreu com um espaço dentro da extinta loja Tools & Toys, no Shopping Cidade Jardim. O consequente encerramento das atividades da loja fez com que a relojoaria reorganizasse sua estratégia de atuação no País. Com isso, seu ponto de venda migrou para nada menos que a Bahia, no Kiaroa Eco-Luxury Resort, um hotel de alto padrão com acesso realizado somente por barco ou avião. Outro sinal da mudança de estratégia da relojoaria é a abertura de uma loja em Miami, que deve acontecer no segundo semestre deste ano. Esta abertura tem como objetivo alcançar consumidores sul-americanos, que frequentemente fazem do destino um local de compras. Por outro lado, a atuação da marca em São Paulo continua, com um escritório e um showroom no coração do Itaim Bibi, bairro nobre da capital.

Com iniciativas de patrocínio de eventos artísticos, a Parmigiani patrocinou, pelo segundo ano consecutivo, a mostra SP Arte, que ocorreu entre os dias 9 e 12 de abril, no pavilhão da Bienal de São Paulo. Foi nesta ocasião que o CEO da companhia, Jean-Marc Jacot, conversou com o WatchTime Brasil sobre os dois anos da presença da marca em terras tupiniquins e suas preocupações em um momento de incerteza financeira, entre outros assuntos.

Jean-Marc Jacot posa em frente ao painel pintado pelo artista Matias Picón

Jean-Marc Jacot posa em frente ao painel pintado pelo artista Matias Picón

WatchTime Brasil: Dois anos atrás, Parmigiani decidiu se inserir no mercado Brasileiro. Você pode fazer um balanço destes dois anos, de como as coisas eram e como estão agora?

Jean-Marc Jacot: O mercado brasileiro é bastante específico para uma marca como a Parmigiani. Basicamente, nós tentamos manter bastante contato direto com o consumidor, porque queremos que ele viva uma experiência na compra de um relógio como Parmigiani. Porque não se trata apenas a compra de um relógio. Nós gostamos de ter contato pessoal e, muitas vezes, gostamos que eles viajem para a suíça, para visitar nossos workshops. Nós tentamos organizar a companhia de uma maneira que possamos encontrar estas pessoas diretamente.

Neste nível estamos bastante satisfeitos com o que acontece no Brasil. Muitas pessoas estão bastante interessadas em relógios. Eles amam os relógios. Nem todos têm dinheiro para comprar modelos caros, mas muitas pessoas possuem capacidade financeira de pagar um relógio Parmigiani. Honestamente, nos primeiros dois anos, estamos muito satisfeitos com o que acontece com a marca. Temos um time que faz um excelente trabalho.

O único desapontamento que tivemos no Brasil foi com o nosso stand no Shopping Cidade Jardim, dentro da loja Tools & Toys, que, infelizmente fechou, e tivemos que sair de lá. Mas, finalmente, transferimos este espaço para um hotel de alto luxo na Bahia. E, honestamente, é um conceito muito divertido. Porque as pessoas vão para este resort para o final de semana ou para férias. E elas têm mais tempo neste período, além de ir à praia.

Finalmente, o mercado Brasileiro é muito bom para nós. Ano passado tivemos a Copa do Mundo que, comercialmente, foi um sucesso. Vendemos muitos relógios. Mais ainda do que esperávamos. Foi um grande sucesso, com todos os convidados que chamamos do mundo todo. Todos estavam felizes e orgulhosos de estarem aqui para a Copa do Mundo. Para muitos deles, a descoberta do Brasil pela primeira vez. Então, para os primeiros anos, é um ótimo resultado. Mesmo que os tempos sejam mais difíceis para o mundo, estamos convencidos de que o mercado brasileiro é bastante importante para os negócios de luxo.

WTBR: Dois anos atrás, você nos disse que cerca de 70% dos negócios do mercado de luxo no Brasil estava em São Paulo. Agora a marca possui uma loja própria em um lugar afastado de São Paulo, na Bahia. Você considera isso uma mudança na estratégia da marca ou vocês ainda possuem a mesma estratégia, mas trabalham com o mesmo público, num “humor” diferente?

JMJ: É um pouco de tudo. Primeiro, quando nos falamos no passado, esta era a imagem que eu tinha sobre o Brasil. Foi o que todos me disseram, o que é realmente verdade. Mas percebemos que muitas pessoas, com muito dinheiro, vivem longe de São Paulo. E ninguém que atua neste mercado vai visitá-los, tenta chegar a eles no interior. O que estamos convencidos é que pessoas possuem capacidade financeira estão no interior do País. Para este tipo de cliente, você tem que ir até eles. Você não pode esperar que estas pessoas cheguem a você. Então, continuamos com a nossa força aqui: temos a sede da marca no País em São Paulo, nosso escritório e nosso showroom também, além das ações que a marca trabalha por aqui, como SP Arte e SP Foto. Mas não queremos esquecer aqueles que estão fora da cidade. Se você for para Goiânia e cidades de alguns outros estados, você vê coisas que não vê por aqui. Nós temos que fazer uma mistura entre São Paulo, Rio de Janeiro, destinos turísticos e pessoas que vivem no interior do país. A mudança de nossa filosofia, desde então, foi a que achávamos que poderíamos estar em São Paulo e que isso era o suficiente. Foi isso que ouvi de muitos colegas que trabalham no mercado de relógios. Mas isso é um erro. Não só um erro no Brasil, mas no mundo todo. Marcas de luxo não apoiam suficientemente cidades de interior. Eles não se promovem fora de grandes centros. Elas se concentram em Paris, Nova York, Londres. Por um lado, isso é verdade, mas por outro não. Por isso esta mudança de posicionamento de dois anos atrás para agora.

WTBR: Como foi e como será a partir de agora a parceria com a CBF?

JMJ: A parceria foi algo basicamente focado na Copa do Mundo. Foi um impulso para nós, para promover a marca durante o evento, com um posicionamento mais rápido. Eu tive um encontro com o presidente da CBF. Nós continuaremos com a parceria de maneira diferente, mas ela ainda está de pé. Porque é uma parceria muito pessoal. Tivemos um contato muito pessoal, que poderá continuar para sempre. Porque acho que seja uma questão pessoal, mais do que financeira. É este o motivo de encontrarmos uma solução para a parceria com eles. É o mesmo com a SP Arte e a SP Foto. Continuaremos por tanto tempo possível. Porque arte, para nós, é um vetor promocional para a Parmigiani.

Modelos Parmigiani Fleurier expostos na SP Arte

Modelos Parmigiani Fleurier expostos na SP Arte

WTBR: A Parmigiani tem esta parceria com SP Arte e SP Foto. Mas pretendem inserir alguma nova parceria aqui no Brasil para que vocês possam alcançar um novo tipo de público que possa estar interessado neste mundo de relógios?

JMJ: Nós tentamos ser consistentes na nossa estratégia ao redor do mundo. Temos três vertentes de nossas iniciativas: um de balonismo, na Suíça. Na arte temos fotografia e música. E no esporte estamos crescendo um pouco. Tentamos fazer este tipo de promoção porque não queremos gastar dinheiro de maneira muito ampla. Então tentamos manter na arte e estamos tentando fazer uma parceria no Brasil com algo relacionado à música, já que o Brasil é o país da música.

WTBR: Quando nos encontramos da última vez, você me disse sobre ensinar sobre alta relojoaria. Como está o andamento deste ensino no Brasil?

JMJ: Nós não somos a única companhia que tenta fazer isso com seus clientes. Não somos arrogantes a este ponto. Nós costumamos convidar algumas pessoas, clientes em potencial, a virem para a nossa fábrica na Suíça e passar dois ou três dias conosco. Para fazê-los entender quanto tempo e como funciona o processo de produção de um relógio. O mercado relojoeiro é algo bastante confuso para o consumidor. Eles acham que o relógio é algo muito simples de ser feito. Nós precisamos mostrar às pessoas como nossas peças são feitas. E quando elas percebem o trabalho que é fazer um relógio como os nossos, depois de dois dias de visita às nossas fábricas – vendo como são feitos os parafusos, as engrenagens, caixas e mostradores – elas veem o quão complicado é a produção e percebem que o preço é aceitável. É uma questão de educação. E o único jeito de educá-las é trazendo as pessoas até você e explicar, com visita e com conversas com nossos relojoeiros. Fizemos um filme no ano passado, com 52 minutos de duração, sobre a nossa fabricação. Em 52 minutos, nós nunca citamos o nome “Parmigiani”. Ele consiste apenas em uma entrevista com os trabalhadores. E, depois dos 52 minutos, a maior parte das pessoas entende como os relógios são feitos. Então, para as pessoas que não podem ir até a Suíça, nós temos este filme que atinge um público diferente. Não é um filme corporativo, mas sim sobre alta relojoaria, que é muito mais interessante para as pessoas. Porque se pedimos a um diretor de cinema para fazer um filme sobre a Parmigiani, com 52 minutos, ele apenas vai engrandecer a marca. Noventa por cento das pessoas que visitam nossa fábrica compram um relógio. As pessoas ficam impressionadas, também, com o fato de trabalharmos para outras 17 relojoarias, com a produção de peças e partes dos relógios. Não divulgamos estas informações de maneira aberta, pois não é tudo que pode ser falado. Mas é por isso que é importante vir até a Suíça para ver o que fazemos.

Modelo Parmigiani Fleurier Ovale Mister A., exposto na SP Arte

Modelo Parmigiani Fleurier Ovale Mister A., exposto na SP Arte

WTBR: Recentemente, tivemos a oscilação do Franco Suíço e também a alta do Dólar no Brasil. Como a Parmigiani vai trabalhar com o aumento do preço dos relógios?

JMJ: Ao longo da minha vida, eu passei por uma situação semelhante por quatro ou cinco vezes. Esta é só mais uma. Nada mudou. Quando o valor de uma moeda sobe, pelas duas ou três primeiras semanas é um verdadeiro desastre. Depois de cinco semanas, está tudo bem. Depois de dois meses, você simplesmente esquece. E você vive com a situação.

WTBR: Mas desta vez foi diferente, já que o Salão Internacional de Alta Relojoaria (SIHH), feira que a Parmigiani expõe para seus revendedores, aconteceu logo depois da mudança do câmbio suíço…

JMJ: Eu posso te dizer que foi um desastre para mim, porque na quinta-feira do anúncio – eu sou representante da Indústria Relojoeira Suíça e também do Banco Nacional Suíço. Eu não sabia desta decisão. Quando eu fiquei sabendo disso era quinta-feira, 10 horas da noite, quando a Bloomberg me ligou de Nova York, e me disseram que precisávamos de um call às 11 horas da noite para falar sobre o problema do Franco. Eu estava bastante chocado, pois a feira aconteceria dois ou três dias depois do anúncio. Mas durante o Salão, para a minha surpresa, apenas um único revendedor australiano falou comigo sobre isso. Em compensação, todos os jornalistas falaram comigo sobre isso. De todo o mundo. Nenhum outro revendedor sequer comentou sobre o assunto. Eu apresentava os relógios, eles faziam os pedidos e pronto.

WTBR: Então você acha que esta oscilação de moeda não se mostra importante para os revendedores e para seu consumidor final?

JMJ: Não é algo positivo, mas temos que trabalhar em cima disso e nos adaptar. Mas a reação de algumas marcas por exemplo, foi algo exagerado. Como é possível reagir tão imediatamente? Você tem que esperar. Depois de duas semanas, o Euro valorizou 5%. Hoje está entre 9 e 10% valorizado. Não foi bom. Você tem que trabalhar com isso. Os relógios que você não vende na Suíça, você vende na França, ou na Inglaterra. Para nós, como uma companhia internacional, é o mesmo. Nós temos subsídio. Mas o único problema para nós é este. Não temos distribuidores. Então é algo interno. Nós vamos apoiar e trabalhar com isso. Não pense que é algo sem importância. Eu já trabalhei com o Dólar um para um com o Franco Suíço. Caiu 200%. Eu vivi com um Dólar para quatro Francos Suíços. Hoje o Dólar está 0,9 por Franco. E já vivi quatro dólares por franco. Você pode imaginar? Hoje em dia os Estados Unidos estão fortes. Americanos vão para a Suíça comprar. Depois disso serão japoneses, depois árabes, depois chineses… Você tem que lidar com isso. Mas o consumidor esquece muito rápido. O que acontece no Brasil hoje em dia não é bom. Mas tenha em mente que seu País é muito forte, é muito grande. É uma questão de gerenciamento, não do País em si. O Brasil é rico, tem capacidade humana, financeira e industrial. Seja feliz com o seu País, tenha orgulho dele. Você pode chorar e chorar. Isso não significa nada. Eu não quero chorar, eu choro pela minha família, mas não pelo dinheiro.

WTBR: Parmigiani tem uma produção restrita a 10 mil peças por ano. Quantas delas vêm para o Brasil?

JMJ: Por uma questão de posicionamento, não podemos divulgas números. Mas, honestamente, para o momento, são bem poucos. Mas você não pode esquecer de algo: você tem o brasileiro comprando no Brasil, mas tem o brasileiro comprando fora do Brasil. Para mim é a mesma coisa. O mercado brasileiro é o mercado brasileiro. E esta é uma das razões do porquê vamos abrir uma loja em Miami. Vamos facilitar a vida dos brasileiros e dos consumidores sul-americanos. Se não achássemos nosso consumidor sul-americano importante, não abriríamos uma loja em Miami. Porque não é o povo de Miami que comprar relógios, o americano de Miami não é gastador. Eu estou muito confiante com o seu mercado e com seu País. Eu acho que, para as próximas gerações, Brasil será uma peça-chave para os mercados. Não apenas para relógio, mas para tudo. Estou verdadeiramente convencido disso.

 
 

Tags: Parmigiani Fleurier Ovale Mister A

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